Filosofia · Saúde · Yoga

Explicando Yoga a um alienígena

Meu primeiro contato com o yoga foi em 1990 e desde então ele tem feito parte da minha vida, as vezes de modo bem próximo, e por muitos períodos, infelizmente, nem tanto. Mas acredito que uma vez que o yoga entra na sua vida, ele não sai. Pelo mesmo foi assim para mim. Nos anos mais recentes tenho buscado um maior contato, procurando estudar mais sobre o assunto. Aulas, livros, cursos, pesquisas. E reflexão.

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Há algum tempo, a partir de questionamentos que surgem nas conversas com amigos e alunos,  venho buscando responder à questão: o que é yoga? Talvez isso possa parecer um pouco estúpido para você que está lendo este texto agora. Ou não. Talvez você saiba a resposta “certa”. Ou não. Tentei, pensei, refleti, esbocei algumas ideias.  Então lembrei-me de um conselho de um antigo orientador: escreva pensando no leitor que nada sabe sobre o assunto.

Por isso, vou tentar explicar o que é yoga para um alienígena!

Um aviso: não sou autoridade no assunto, portanto tudo aqui escrito não é a Verdade, mas apenas o fruto de minhas reflexões e investigações.

Imagine um ser que acaba de chegar do espaço, está passeando com você, encontra uma placa onde se lê “Yoga” e pergunta: o que é yoga? O que você responde?

Você tem então uma brilhante ideia e leva o alienígena para uma aula de yoga, para que ele possa ver “na prática”. Mas uma aula de yoga é yoga? Bem, na minha opinião, boa parte das aulas de yoga são aulas de práticas de āsana . E não, não é mesma coisa.

Acredito que a resposta à pergunta do alienígena seja simples e ao mesmo tempo complexa, e foi dada pelo sábio Patañjali: yoga é a inibição das modificações da mente. E é isso. Definição rápida e concisa. Qualquer coisa além disso não “define” o yoga. Pode explicar o que são as modificações da mente ou como inibir tais modificações.

Eu disse que a resposta ao meu amigo ET seria simples, mas também complexa. Dizer que yoga é simplesmente a inibição ou cessação das modificações ou flutuações da mente parece simples. Mas compreender e acima de tudo alcançar este estado é para muito poucos!

E é por isso também que digo que uma “aula de yoga” não é “aula de yoga”. Se yoga é a inibição das modificações da mente, yoga seria um estado da mente, uma condição, na qual é possível permanecer por alguns milissegundos ou horas, talvez dias, ou uma eternidade. Não sei como ter “aula” de um estado mental. Mas então o que estamos fazendo na nossa aula de yoga? Como conseguimos alcançar este estado mental sem perturbações?

Na maioria esmagadora das vezes estamos praticando āsana (posturas). Também podemos praticar prānāyāma (exercícios respiratórios) e “meditação”. E como estas três coisas se relacionam ao yoga?

Vamos começar bem do início… Mas ninguém sabe ao certo quando foi o início. Acredita-se que em algum ponto entre 400 AC e 400 DC Patañjali tenha compilado, codificado, disciplina do yoga em um texto chamado Yogasūtra. Ele não inventou ou criou o yoga, mas compilou o que já existia. Yoga como uma disciplina, uma doutrina filosófica. O texto de Patañjali possui 196 versos ou sutras, que são afirmações curtas e concisas. E para a mente do homem moderno comum, um texto hermético. Tanto que há muitos livros, com centenas de páginas cada, cujo objetivo é esclarecer, explicar, facilitar a compreensão de “apenas” 196 versos. Mas além destes livros, você certamente ainda precisará de um bom professor e muita vivência.

Voltando às “aulas de yoga”.

Não cabe aqui explicar o Yogasūtra  (nem julgo ter competência para tal!), mas neste texto Patañjali diz que para alcançar a cessação das perturbações na mente é necessário seguir um caminho de oito passos. Eu prefiro um caminho de 7 passos e uma chegada:

  1. Yama: regras éticas do que não fazer
  2. Niyama: regras de conduta do que fazer
  3. Āsana: postura estável e confortável
  4. Prānāyāma: controle consciente da respiração
  5. Pratyāhāra: separação entre mente e mundo sensorial
  6. Dhāranā: concentração
  7. Dhyāna: meditação
  8. Samādhi: estado último e o objetivo do caminho, a libertação, a cessação das perturbações da mente.

Há quem afirme que os passos devem ser seguidos sequencialmente, ou seja, você só poderia fazer prānāyāma depois de ter dominado yama, niyama e āsana. Mas convenhamos que isso não parece prático para o homem moderno. Então vamos tentando fazer tudo quase em paralelo, especialmente os quatro primeiros passos. Mas a partir do quinto, é muito difícil não seguir um fluxo sequencial: sem dominar a meditação não há samādhi.

Note que se yama e niyama são regras de conduta, como os 10 mandamentos, em uma comparação bem genérica, devem ser guardadas a todo instante, na nossa vida diária. Elas não estão restritas a uma simples aula. Primeiro ponto que mostra que fazer aulas de yoga algumas vezes na semana são significa que estamos seguindo o caminho do Yoga. Você não pode dizer que é efetivamente um cristão apenas por frequentar as missas ou cultos dos domingos, concorda?

Na aula de yoga praticamos várias posturas, que certamente são benéficas à saúde, quando realizados corretamente, como qualquer outro exercício físico. Então o que tornaria uma aula de āsana diferente de correr, nadar, fazer ginástica ou pilates? A meu ver, nada. Alguém poderia argumentar que para executar as posturas corretamente é necessária atenção plena, e portanto cultivaremos uma capacidade de controle da mente, reduzindo as distrações. Que as posturas trabalham os campos de energia do corpo. Mas não deveríamos praticar qualquer atividade física, aliás qualquer atividade, com atenção plena? Se vc não estiver atento enquanto corre, poderá cair e se machucar. Se não estiver atento enquanto prepara a refeição, poderá se cortar! E será que não poderíamos trabalhar os campos de energia com outros tipos de exercício? Mas então para que servem os āsana? Patañjali define āsana como uma postura estável e confortável. E para que isso? Para preparar o corpo para a meditação! Se não cultivarmos um corpo saudável, não seremos capazes de manter uma correta postura meditativa pelo tempo adequado. E não é apenas a postura que importa, mas especialmente nossa atitude ao praticá-la. Āsana não é o objetivo, mas apenas o terceiro passo de um longo caminho cujo objetivo é Samādhi. As vezes penso se a prática de āsana não seria apenas o jeito milenar de fazer ginástica…

Em algumas aulas de yoga são ensinados alguns exercícios para controle da respiração, os prānāyāma. Estas práticas são muito importantes no caminho, pois se não conseguirmos controlar o prana, não seremos capazes de controlar a mente!

Pratyāhāra e dhyāna são raramente praticados nas aulas de yoga. E não, quase certo que você não pratica meditação, como descreve Patañjali, nas aulas de yoga. No máximo trabalhamos dhāranā, ou seja concentração. Por isso, eu disse antes que nas aulas poderíamos fazer “meditação”. Na verdade seria dhāranā, o sexto passo. O treino destes três passos é árduo e exige dedicação diária e intensa, e como yama e niyama irão acontecer muito mais fora da sala de aula.

Sobre o último ponto, Samādhi, a chegada, acho que nem preciso comentar. É um estado para muito poucos, e muitas vidas, de dedicação intensa aos passos do caminho. Se você atingiu este estado, certamente nem estaria lendo este texto!

Então, ao meu amigo alienígena eu diria:

Yoga é um estado no qual as perturbações da mente cessaram. Para alcançar este estado é necessária muita dedicação. Devemos seguir determinados preceitos de conduta, manter nosso corpo saudável, aprender a controlar nossa respiração, aprender a separar a mente dos estímulos sensoriais. Aprender a concentrar a mente unificadamente em um objeto, e em seguida, desenvolver a capacidade de contemplação neste objeto. Depois de muita prática e dedicação, em uma ou mais provavelmente várias vidas, podemos enfim atingir nosso objetivo, a libertação da mente, a completa cessação das perturbações mentais: o Yoga.

 

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Um comentário em “Explicando Yoga a um alienígena

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