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Pão Light, Zero, Integral: Você está sendo enganado?

Somos constantemente cobrados a manter um estilo de vida saudável, o que inclui nossa alimentação. Recebemos informações de todos os lados, sobre o que saudável ou não, com o suposto objetivo de ajudar-nos a fazer as melhores escolhas. Para a maioria de nós as informações chegam pelos meios de comunicação, com reportagens, programas de TV, entrevistas com pesquisadores e profissionais de saúde. E também pelas propagandas. Somos bombardeados por comerciais de TV, nas revistas, jornais e nas prateleiras dos mercados. São rótulos bonitos, que chamam nossa atenção para os grandes benefícios de cada um dos produtos. E, na boa fé, e também por falta de informação, somos convencidos. São inúmeros os casos absurdos, mas certamente um dos que mais desequilibram meu “pitta” é o pão. O pão nosso de cada dia. Um dos alimentos mais antigos da humanidade.

O pão é um alimento extremamente simples, feito apenas com farinha, água e fermento. As vezes até mesmo apenas farinha e água. Tudo bem, as vezes tem um pouquinho de açúcar e gordura. Mas algo tão simples tornou-se complexo. Basta olhar as prateleiras do mercado. A quantidade de opções são de enlouquecer! As embalagens comunicando os grandes benefícios e vantagens de cada um. Integral! Zero! Sem açúcar! Sem gordura! Sem gordura trans! Multi-grãos! E agora? Qual escolher? Em se tratando das marcas tradicionais, das grandes indústrias, eu diria: nenhum.

Para entender minha posição radical, é preciso entender o que realmente está dentro de cada embalagem. Então comecemos por uma receita bastante simples e sua composição nutricional:

Ingredientes

Calorias Carboidratos Proteínas Gorduras Fibras

500g farinha de trigo

1.820 380 g 50 g 5 g 15 g

1 col. (chá) de açúcar

11 3 g

1 col. (sopa) de azeite

119 14 g

2 col. (chá) de fermento biológico

24 4 g 4 g 2 g

1 col. (chá) de sal

água

Totais

1974 387 g 54 g 19 g 17 g

Com exceção do azeite, a farinha é responsável por 90% ou mais das propriedades do pão. Com base nisso, podemos perguntar então o que seria pães zero, light ou integral e quais os ganhos efetivos em consumi-los. Quais seriam efetivamente os ganhos ao retirar o açúcar e a gordura?

Pão Integral

Quando a embalagem de um pão traz a informação “integral” em seu rótulo, você vai imediatamente vai pensar que é um produto mais saudável, mais nutritivo, pois é feito com farinha integral, certo? Quase. Segundo a Resolução RDC 90/2000 da ANVISA, pão integral é um “produto preparado, obrigatoriamente, com farinha de trigo e farinha de trigo integral e ou fibra de trigo e ou farelo de trigo”. Ou seja, basta que seja “preparado com” farinha integral ou fibra ou farelo de trigo. Isto não significa que estes ingredientes sejam majoritários na receita do produto. Um pouco de farinha integral ou de farelo já basta para tornar o produto “integral”! Isto certamente não garante, em hipótese alguma, que um pão integral industrial seja tão mais nutritivo que um pão comum, preparado apenas com farinha de trigo refinada.

Neste ponto é importante também observar a lista de ingredientes de cada embalagem. A Resolução RDC 259/2002 da ANVISA determina que os ingredientes sejam listados em ordem decrescente de suas proporções. Então, se na lista de ingredientes o primeiro é “farinha de trigo enriquecida”, então a farinha refinada, branca, é o ingrediente em maior quantidade. Mas mesmo que o primeiro ingrediente seja a farinha de trigo integral, saiba que ela pode estar apenas em uma quantidade um pouco maior que a refinada, como 50,1% e 49,9%, por exemplo.

Então, se você faz questão de consumir um pão completamente integral, consulte a lista de ingredientes, e não se deixe levar pelo rótulo ou a propaganda do produto.

E não se esqueça que a farinha integral não é menos calórica do que a refinada. Ela pode ser mais nutritiva, mas nunca deve ser usada em substituição a refinada se você quer restringir sua ingestão calórica.

Pão Light ou Zero

Em geral, esperamos que um produto “light”, que significa leve em inglês, seja menos calóricos, não é? Mas se um pão é cerca de 90% farinha, com seria possível reduzir significativamente seu poder calórico?

Segundo as informações publicadas no site de um fabricante de pães de forma, podemos notar que as diferenças calóricas e nutricionais entre pães branco, integral, zero e leve são irrisórias, eu diria, ridículas.

Valores para 50g –>

Calorias

Carboidratos

Proteínas

Gorduras

Fibras

Pão tradicional

126 kcal

26 g

4,6 g

0,9 g

1,4 g

Pão tradicional zero

119 kcal

23 g

5,5 g

0,6 g

1,4 g

Pão integral

122 kcal

20 g

6,3 g

1,7 g

3,5 g

Pão integral zero

109 kcal

20 g

5,4 g

0,8 g

2,8 g

Pão Leve

119 kcal 23 g 5,5 g 0,6 g 1,4 g

Pão Leve Integral

119 kcal 20 g 5,4 g 0,7 g 2,8 g

Veja o pão tradicional e o tradicional zero, por exemplo. Zero no que?! Segundo o site do fabricante o pão é “zero colesterol, zero gordura trans e sem adição de gorduras e açúcares”. Ué, mas o pão não tem gordura? Mais uma vez, segundo o fabricante “os açúcares e gorduras mencionados na informação nutricional são decorrentes da natureza dos ingredientes e do processo de fermentação”. Ou seja, mesmo com todo esses “zeros” o resultado final não mudou muito, certo?

E o pão “leve”? Segundo o fabricante, este pão “é ideal para pessoas que não apreciam pães integrais, mas desejam um pão leve e com baixas calorias”. Baixas calorias? 126kcal do pão tradicional contra 119kcal do leve. Uma redução de apenas 5%! Não sei quanto a você, mas meu conceito de “baixo” é bem diferente deste…

Segundo a Portaria SVS/MS 27/1998 da ANVISA, um alimento sólido, como o pão, pode ser considerado “baixo, light, lite, leve, low” com relação a diferentes características:

  • Valor calórico: se possui no máximo 40kcal por 100g. Neste aspecto, nenhum pão é light, nem mesmo os light e leves.
  • Açúcares: se possui no máximo 5g por 100g. Como quase todos não trazem informações específicas quanto a quantidade de açúcar, então todos seriam light?
  • Gorduras totais: se possui no máximo 3g por 100g. Então quase todos os pães são light, com exceção do integral?

Mas segundo a mesma portaria, um alimento sólido também pode ser considerado “baixo, light, lite, leve, low” se comparado a um outro. Para isso, deve apresentar:

  • Valor calórico: redução mínima de 25% e diferença maior que 40kcal por 100g. Então o “Pão Leve” seria “leve” se comparado a que? Certamente não em relação aos demais.
  • Açúcares: redução mínima de 25% e diferença maior que 5g por 100g.
  • Gorduras totais: redução mínima de 25% e diferença maior que 3g por 100g. Também não achei pão que se enquadre nesta regra.

Conclusão

Pode ser que eu não tenha entendido nada dos rótulos ou das regulamentações do governo, mas parece que estamos sendo enganados, lesados, ludibriados. Ou talvez eu não esteja tão errada assim, com base nas conclusões de um relatório do INMETRO sobre pães light .

Também recomendo, se você tiver paciência, a leitura do manual da ANVISA com orientações aos consumidores sobre rotulagem de alimentos.

Aqui discutimos apenas alguns aspectos básicos sobre os pães industrializados, e não falamos sobre os aditivos. Isso é outra longa história e fica para uma próxima vez.

Então, se quiser um pão realmente saudável, faça em casa. Não dá? Então procure comprar pães caseiros, a venda em feiras, lojas de produtos “naturais”, ou mesmo nos mercados. Mas sempre, sempre leia os rótulos.

E mais uma dica, com relação aos aditivos: quanto maior o prazo de validade, maior a quantidade de aditivos, maior o grau de processamento e menor o valor nutricional. Se um pão caseiro não dura mais de uma semana, como pode o não industrializado durar um mês?

Bibliografia de apoio:

1. SELF Nutritivo Data. Disponível em: <http://nutritiondata.self.com/>. Acessado em: 9 novembro 2016.

2. ANVISA. Resolução – RDC nº 90, de 18 de outubro de 2000. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/anvisalegis/resol/2000/90_00rdc.htm>. Acesso em: 8 novembro 2016.

3. ANVISA. Resolução RDC nº 259, de 20 de setembro de 2002. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/alimentos/legis/especifica/rotuali.htm>. Acesso em: 8 novembro 2016.

4. ANVISA. Portaria SVS/MS nº 27, de 13 janeiro de 1998. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/394219/PORTARIA_27_1998.pdf>. Acesso em: 9 novembro 2016.

5. ANVISA. Rotulagem Nutricional Obrigatória – Manual de Orientação aos Consumidores – Educação para o Consumo Saudável. Disponível em: <https://www.anvisa.gov.br/alimentos/rotulos/manual_rotulagem.PDF>. Acesso em: 8 novembro 2016.

6. INMETRO. Pão Light. Disponível em: <http://www.inmetro.gov.br/consumidor/produtos/pao_light.pdf>. Acesso em: 9 novembro 2016.

7. WICKBOLD. Pão de Forma. Disponível em: <http://www.wickbold.com.br/linhas-produtos/linha-forma/>. Acesso em: 9 novembro 2016.

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