Ayurveda · Saúde

Tudo que eu gosto de comer faz mal!? E agora? (Parte I)

Quando começamos a estudar alimentação dentro do Ayurveda, é comum um certo desespero inicial, um espanto: “Eu como tudo errado! Tudo que eu gosto me faz mal! E agora!

Isto aconteceu comigo, e vejo acontecendo com várias pessoas quando se deparam com o Ayurveda. Ontem recebi um comentário da Katia, que falava exatamente sore isso… Então resolvi escrever um pouco sobre o assunto, e quem sabe ajudar a “aliviar” o desepero inicial e suavizar a jornada em busca de uma alimentação mais equilibrada e saudável.

Já falamos um pouco sobre a importância da boa nutrição, de um modo mais amplo. Mas vamos agora pensar em alimentos e digestão.

Alimentação é fundamental para o Ayurveda, mas não é só o que comemos que importa. É principalmente como digerimos o que comemos. Mesmo que sigamos perfeitamente as recomendações da dietética ayurvédica, comendo o que é bom para nossa constituição (Prakriti) e/ou nossos desequilíbrios (Vikriti), é preciso que esta “alimentação perfeita” seja bem digerida. Caso contrário, poderão ser geradas toxinas no organismo. Nossa alimentação também precisa estar compatível com a nossa capacidade digestiva.

Para adotarmos um estilo de nutrição baseado nos princípios do Ayurveda, precisamos entender uma pouco mais sobre o processo digestivo e sua importância. E assim, identificar como podemos atuar sobre este processo, melhorando-o.

A idéia foi organizar o tema em “passos” para que possamos caminhar juntos e, quem sabe assim, no final, você se sinta mais confiante e confortável para fazer as mudanças necessárias na sua alimentação.

Primeiro Passo: Entendendo a Digestão
Este é o primeiro passo: saber como funciona a nossa digestão. Para começar, é preciso entender que digerir é transformar. Por isso no nosso corpo, no nosso ser, acontecem vários processos digestivos. Existe a digestão dos alimentos que comemos, que acontece no aparelho digestório. Mas também há a digestão que acontece no nível celular, dos tecidos, há a digestão das emoções, a digestão dos pensamentos. Mas aqui vamos tratar da primeira, a digestão dos alimentos, não que as demais também não sejam importantes para a saúde.

Para começar precisamos responder a uma pergunta fundamental: para que serve a digestão?

Bem, nosso corpo, nossas células e tecidos, necessitam de nutrientes, como açúcar (carboidrato), gordura, proteína, vitaminas, sais minerais, para desempenharem corretamente suas funções. E a ingestão de alimentos é como podemos fornecer estes nutrientes às células. Mas estes nutrientes estão em um “formato” que as células não conseguem entender, aproveitar. Se eu preciso de vitamina C, não adianta dar um limão para as células! É preciso decifrar, decompor os alimentos nos nutrientes que as células necessitam. Isto é a digestão: transformar os alimentos ingeridos em nutrientes que possam ser aproveitados pelo corpo. E este processo é como um quebra-cabeças. Há um tamanho e tipo certo de cada molécula que as células podem e sabem usar. Qualquer coisa diferente disso fica “vagando” pelo organismo: são as toxinas.

Nossa jornada pela digestão começa quando colocamos um alimento na boca. Nossa língua sente e detecta diversas informações a cerca deste alimento, como potência quente/frio (virya), sabor (rasa) e temperatura. Estas informações são enviadas ao cérebro, que por sua vez envia instruções aos demais órgãos, como estômago, glândulas e vísceras, de modo que eles possam se preparar para o alimento que vão receber, fabricando as enzimas e sucos apropriados.

Então mastigamos o alimento, reduzindo-o a tamanhos menores e misturando-o com a saliva. Aí já começamos a digerir, quebrar o alimento: reduzindo a pedaços pequenos pela mastigação e misturando com a saliva, cujas enzimas atuam sobre os carboidratos.

O alimento, ou bolo alimentar, é empurrado pela língua, passa pela faringe, pelo esôfago, e chega ao estômago, onde encontra o suco gástrico, altamente  ácido. Através dos movimentos peristálticos, alimento e suco gástrico se misturam, formando uma massa cremosa e ácida, o quimo. O suco gástrico vai agir sobre as proteínas.

Esta massa passa ao duodeno, parte inicial do intestino delgado, onde encontra a bile, produzida pelo fígado, e o suco pancreático, ambos de natureza alcalina, e o suco entérico, produzido pela mucosa intestinal, de natureza mais neutra. Podemos dizer que aí acontece efetivamente a digestão, a grande metamorfose dos alimentos. O arroz, o feijão, a batata, o que ingerimos será transformado em diferentes produtos, as “peças do quebra-cabeça”, como glicose e frutose (açucares), glicerol (álcool), aminoácidos e ácidos graxos (gorduras).

Continuando sua jornada, essa massa repleta de nutrientes segue pelo intestino delgado (são cerca de 6m de comprimento!). A parede do intestino é formada por vilosidades, como milhões de pequenas “rugas” que fazem aumentar a superfície de contado da massa de nutrientes. Nestas vilosidades estão vasos sanguíneos e linfáticos, que absorvem e o jogam os nutrientes na corrente sanguínea.

Quando chega ao final do intestino delgado, todos os nutrientes já deverão ter sido absorvidos, porque na última parte da jornada, no intestino grosso, ocorre apenas absorção de água e líquidos. A massa vai sendo atacada por bactérias que vivem no intestino, decompondo restos de alimentos que não foram assimilados, e tornando-se cada vez mais seca, até ser eliminada pelo ânus em forma de fezes.

Conhecendo agora um pouco mais sobre o processo digestivo, podemos responder algumas questões…

O que acontece então se a produção dos sucos e enzimas digestivas não for adequada, em quantidade e qualidade?

Mesmo comendo um alimento de altíssima qualidade, natural, sem agrotóxicos, adequado à constituição, dependemos dos sucos e enzimas para transformar este alimento em nutrientes.

Antes de serem transformados em nutrientes básicos para as células, (glicose, frutose, aminoácidos, etc), os alimentos são quebrados em compostos maiores, como maltose, oligopeptídeos. Estes não podem ser aproveitados pelo organismo. É preciso que sejam transformados. Então, se não conseguimos produzir enzimas e sucos digestivos que possam efetivamente transformar os alimentos nos nutrientes básicos, poderemos ter substâncias sem utilidade circulando na corrente sanguínea.

E se o intestino grosso absorver muita água? 

As fezes ficam ressecadas, dificultando sua eliminação, resultado em constipação, muito comum nas pessoas de constituição ou com desequilíbrio de vata.

Dá para identificar as três energias de Vata, Pitta e Kapha atuando sobre a digestão?

Vata é movimento. Esta na degutição, nos movimentos peristálticos e em todo movimento que acontece no corpo.

Pitta é transformação, metabolismo. Está presente nas enzimas e sucos digestivos, transformam e digerem os alimentos.

Kapha é lubrificação. Está presente no muco que recobre o estômago e o intestino, protegendo-os das ações das enzimas.

E agora? Como posso saber se minha digestão está boa? Posso melhorar a digestão? Como mudar minha alimentação, ingerindo alimentos adequado a minha constituição e minha capacidade digestiva?

Próximo Passo: Estudando a sua Língua…

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